Introdução

Na data em que escrevo esse artigo, exatamente há 5 dias, a Oracle, gigante de tecnologia, demitiu 30 mil funcionários com um simples email às 6h da manhã. Eu fiquei pensativo por alguns dias sobre isso, até porque o total de layoffs nesse ano de 2026 já bate os 80 mil funcionários ao redor do mundo ( somente contando as big techs, sem contar outras empresas ) nos 3 primeiros meses do ano.

Eu lutei comigo mesmo tentando racionalizar isso como mais uma mudança de ciclo. Afinal, o modelo de trabalho já passou por diversas transformações ao longo da história e, em geral, novas funções surgem, mercados se reorganizam e a economia encontra um novo equilíbrio.
E não, esse não é um artigo apocalíptico sobre robôs substituindo humanos.

Mas, ao observar a velocidade e a natureza dessas mudanças, uma inquietação começou a fazer mais sentido para mim, principalmente olhando como Product Manager:

Talvez a humanidade não esteja apenas passando por mais uma transformação.

Talvez estejamos diante de um momento em que o próprio modelo de valor baseado no trabalho humano precise de um pivot.

O modelo atual

Até o momento, o modelo vigente é relativamente claro: o ser humano estuda, se qualifica, desenvolve habilidades e, ao se diferenciar, aumenta seu valor no mercado. Esse valor pode se traduzir em renda, reconhecimento ou impacto.

Historicamente, isso sempre foi sustentado pela escassez: poucos tinham acesso a conhecimento, poucos conseguiam executar com qualidade e poucos dominavam habilidades cognitivas avançadas.

Podemos olhar para exemplos clássicos como Mozart e Beethoven na música, Isaac Newton na ciência, ou até figuras contemporâneas como Messi, Steve Jobs e Bill Gates. Todos eles tinham algo em comum: uma capacidade rara de gerar valor, seja cognitivo, físico ou a combinação dos dois.

No geral, seres humanos sempre se destacaram, seja por suas habilidades cognitivas, físicas ou pela capacidade de aplicar ambas para gerar impacto. Esse modelo sempre incentivou a individualidade, a busca por excelência e a diferenciação.

E, até aqui, ele funcionou.

A disrupção do modelo atual

A disrupção provocada pela inteligência artificial começou a se tornar visível para o público em geral a partir de 2023, ainda que seus impactos já estivessem sendo construídos muito antes disso.

De lá pra cá, a forma como trabalhamos, aprendemos, pesquisamos, respondemos e até nos comunicamos começou a mudar de forma significativa.

Uma das declarações mais emblemáticas desse período foi feita por Elon Musk em 2025, ao afirmar que praticamente todo o conteúdo disponível na internet já havia sido consumido para treinamento de modelos de linguagem. Isso gerou discussões intensas sobre propriedade intelectual, uso de dados e o próprio papel do conteúdo humano nesse novo cenário.

Mas, para além das discussões legais e éticas, existe uma mudança estrutural acontecendo, pela primeira vez na história, o conhecimento não está apenas acessível. Ele está operacional.

Modelos de linguagem não apenas armazenam informação. Eles conseguem interpretar, sintetizar e aplicar esse conhecimento sob demanda. E isso, por si só, já seria suficiente para gerar um impacto significativo no trabalho intelectual. Mas a mudança não para aí.

Ela começa a avançar também sobre aquilo que sempre consideramos exclusivamente humano: a capacidade de criar e executar. Hoje, sistemas de inteligência artificial já são capazes de compor músicas, gerar pinturas, escrever roteiros, editar vídeos, criar campanhas publicitárias completas e até auxiliar ou conduzir a direção de veículos. Ou seja, não estamos apenas automatizando tarefas operacionais ou analíticas. Estamos avançando sobre cognição, criatividade e execução ao mesmo tempo.

Historicamente, essas três dimensões sustentaram o valor do trabalho humano. E é justamente isso que torna essa disrupção diferente das anteriores.

O nivelamento cognitivo

Se antes o diferencial humano estava na capacidade de adquirir e aplicar conhecimento, agora passamos a viver em um cenário onde essa capacidade pode ser amplificada, ou até parcialmente substituída, por sistemas de inteligência artificial. Isso cria um efeito importante: o nivelamento cognitivo.

Tarefas que antes exigiam anos de estudo, prática e experiência agora podem ser executadas com auxílio de IA em uma fração de segundos. Isso não significa que especialistas deixem de existir, mas que a distância entre um especialista e um intermediário diminui drasticamente.

E quando isso acontece, o valor marginal do trabalho cognitivo tende a cair.

Sob a ótica de produto, estamos vendo algo clássico acontecer:

  • aumento massivo de oferta
  • redução de custo de produção
  • consequente commoditização

Se qualquer pessoa consegue produzir textos, códigos, análises, músicas, imagens ou até estratégias com apoio de IA, então a diferenciação baseada apenas em capacidade cognitiva deixa de ser um diferencial.

O impacto no modelo da humanidade

Isso nos leva a uma pergunta ainda mais desconfortável: Se não apenas o trabalho cognitivo, mas também a criação e parte da execução deixam de ser escassos, o que sustenta o modelo de humanidade que construímos até aqui?

Grande parte da nossa sociedade foi estruturada em torno de um conceito simples: o ser humano gera valor através do seu trabalho. E esse valor está diretamente ligado à sua capacidade de pensar melhor, criar melhor ou executar melhor do que outros.

Mas o que acontece quando essas capacidades deixam de ser diferenciais? Quando qualquer pessoa pode acessar uma camada cognitiva sob demanda. Quando criar deixa de exigir habilidade. Quando executar passa a ser automatizado.

Não estamos falando apenas de impacto no mercado de trabalho. Estamos falando de um desalinhamento estrutural.

O modelo atual de humanidade pressupõe escassez de capacidade.

Mas o que estamos construindo agora é disponibilidade. E quando um modelo baseado em escassez encontra um ambiente de disponibilidade, ele não se ajusta.

Isso não significa que a humanidade falhou. Mas talvez signifique que o modelo que usamos para organizar valor, esforço e recompensa não seja mais compatível com o mundo que está emergindo.

E, como em qualquer produto, quando o contexto muda e o modelo deixa de fazer sentido, existe apenas uma alternativa:

PIVOTAR.

Conclusão

Talvez não estejamos diante de uma crise do mercado de trabalho, talvez estejamos diante de uma incompatibilidade entre o modelo da humanidade atual e o mundo que estamos criando.

Durante décadas estruturamos a sociedade em torno de um princípio simples: o ser humano gera valor a partir de sua capacidade de pensar, criar e executar melhor do que os outros, mas, pela primeira vez, essas três dimensões começam a ser impactadas simultaneamente.

Não se trata apenas de automação de tarefas; estamos vendo a redução do custo de produção de qualquer coisa que possa ser transformada em informação, seja texto, uma imagem, um código, um filme, uma música ou até uma decisão.

E quando o custo cognitivo tende a zero, a diferenciação baseada nisso também tende a desaparecer; isso significa o fim do ser humano? Acredito que não. Significa que aquilo que sustentava a sua proposta de valor dentro do modelo atual deixa de fazer sentido.

Se levarmos essa linha de raciocínio ao extremo, alguns cenários começam a surgir; eles não são exatamente confortáveis:

  1. O mundo onde o trabalho humano perde tanto o valor que a própria necessidade da população deixa de fazer sentido econômico
  2. Uma divisão clara da sociedade onde um lado detém capital, acesso à tecnologia e controle sobre os sistemas de inteligência artificial e aqui entram as big techs e os grandes magnatas do mundo e de outro, uma massa que consome, mas não controla, e que passa a disputar relevância em um mundo onde o esforço humano vale cada vez menos.
  3. Outra possibilidade seria uma fragmentação onde teríamos utopicamente ambientes controlados, redes fechadas, um tipo de internet privada e controlada onde o acesso à inteligência artificial seria limitado ou inexistente.

Pode parecer exagero, mas, olhando historicamente, mudanças estruturais profundas quase nunca foram lineares ou equilibradas e sinceramente, a pergunta certa talvez não seja qual desses cenários vai acontecer, mas sim qual deles já iniciou.

E no fim, se o modelo atual deixou de fazer sentido, qual será o próximo e, qual será o nível de importância que o ser humano terá nele.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *